De acordo com as conclusões de um estudo publicado recentemente, uma sessão de Reiki produz melhorias imediatas em enfermeiras que sofrem de síndrome de burnout, um tipo de esgotamento associado ao desempenho profissional. Falámos com alguns enfermeiros portugueses e ficámos a saber que o Reiki é uma estratégia usada por todos eles para lidar com o stresse a que estão sujeitos.

Num mundo tão competitivo e exigente em termos laborais é cada vez mais frequente encontrarem-se profissionais, de qualquer área, que sofrem de síndrome de burnout (SB). Também conhecida como esgotamento, esta situação corresponde a um quadro de exaustão física e psíquica, resultante de uma exposição prolongada a níveis elevados de stresse. Confundida frequentemente com depressão, a SB é responsável por inúmeros pedidos de ajuda terapêutica.

Tendo em conta as elevadas exigências a que estão sujeitos em termos físicos e emocionais, os enfermeiros constituem um grupo profissional particularmente susceptível a este problema. Com efeito, diversos estudos realizados apontam para cerca de 40% de frequência de burnout em enfermeiros. Partindo desta premissa, um grupo de profissionais de saúde associados à Universidade de Granada, Espanha, levou a cabo um ensaio clínico destinado a avaliar a influência imediata do Reiki em enfermeiras com burnout diagnosticado. Para tal, logo após uma sessão desta terapia, foram medidos os níveis de imunoglobina A salivar (IgAs), a actividade da α-amilase e a pressão arterial.

Como principal conclusão do estudo, publicado na Revista Latino-Americana de Enfermagem (Set./Out. 2011) destaca-se que «uma única sessão de Reiki produz melhora imediata da função imunológica (IgAs) e da regulação da pressão arterial em enfermeiras com SB. Portanto, a aplicação de tratamentos por meio do Reiki poderia ser abordagem efetiva com vistas ao manejo e à prevenção dos efeitos negativos do estresse ocupacional, em subgrupos de enfermeiros com perfil de alto risco para SB».


Passo importante
Embora os autores destaquem a necessidade de estudos adicionais, este é já considerado um passo importante no sentido de demonstrar a eficácia do Reiki em situações concretas. Isso mesmo confirma Bruno Azevedo, enfermeiro militar no Hospital de Marinha, em Lisboa. Na sua opinião, «estas conclusões são clarificadoras e de extrema importância no contexto actual». O profissional de saúde sublinha que a SB «é correlacionada muitas vezes com depressão e, consequentemente, com a diminuição da resposta imunitária». Explica ainda que «a imunoglobolina A (IgAs) é um anticorpo predominante nas secreções e tem como principal acção proteger o organismo da invasão de vírus e bactérias, daí a sua propriedade imunitária». Perante este contexto, Bruno Azevedo, que é igualmente vice-presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Reiki, conclui que «segundo este estudo, a aplicação de Reiki promove um aumento da imunidade, ou seja, da protecção do organismo, e um melhor aporte do sangue a todo o corpo, o que se traduz numa melhoria geral do indivíduo».

Perspectiva idêntica é partilhada por Ida Lourenço, enfermeira no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental e praticante de Reiki. Nas suas palavras, as conclusões deste estudo «são muito importantes», pois «comprovam o efeito de relaxamento corporal e o aumento da resposta imunológica, após uma sessão de Reiki». A enfermeira considera mesmo que os resultados alcançados demonstram que, através desta terapia complementar, «as pessoas, quer sejam enfermeiros ou não, podem contribuir para a sua saúde ao diminuir os efeitos do stresse ocupacional evitando a etapa final que é a síndrome de burnout».

«Bem-estar considerável»
Vânia Moreira, enfermeira militar no Hospital de Marinha, confessa não ter ficado surpreendida com as conclusões do estudo. Não sendo praticante, recebe Reiki «com uma frequência não muito regular», isto é, com intervalos de duas a três semanas entre sessões. E recorre a esta terapia alternativa porque as vantagens são claras para si: «Sinto um aumento de bem-estar físico e emocional considerável.» Depois de ter experimentado o Reiki há quatro anos, a enfermeira diz que só há cerca de três meses reiniciou as sessões, depois de engravidar. E os resultados estão a agradar-lhe bastante: «Posso constatar o aumento de movimentos do meu feto na hora que sucede ao Reiki; eu fico mais calma, tranquila e o feto movimenta-se mais.»

A enfermeira reconhece que o ensaio clínico agora divulgado é «sem dúvida, um bom indício de que este tema carece de um estudo mais aprofundado e alargado, de forma a poder ser extrapolado para a população em geral». E isto porque considera importante «alertar a comunidade para os benefícios de terapias menos tradicionais no nosso país, terapias que gozam de séculos de experiência noutros, com benefícios mais que comprovados». «Havendo um reconhecimento geral da população dar-se ia um grande passo para a introdução destas terapias no Serviço Nacional de Saúde», conclui a enfermeira.


Cuidar de si em primeiro lugar

Mas será que a generalidade dos profissionais de enfermagem está informada em relação aos benefícios das técnicas de relaxamento e meditação? Segundo Ida Lourenço, a maioria está sensibilizada para estes assuntos «através do programa curricular actualmente em vigor nas escolas de enfermagem». Todavia, a informação disponível não é suficiente, reconhece. «O que constato é que os enfermeiros, tal como outros profissionais de saúde, necessitam de ter consciência de que para cuidar dos outros precisam de cuidar de si. Como pessoas é-lhes exigido muito para além do que é saudável, e muitas vezes relegam para segundo plano as suas próprias necessidades», justifica. E lamenta que «só quando se encontram numa fase mais avançada de stresse ocupacional é que procuram um estilo de vida com mais saúde».

«Quem cuida de quem cuida?» é também uma «questão pertinente» para Bruno Azevedo. «Se não cuidar de mim, cuidarei bem dos outros?», interroga-se o enfermeiro. Embora acredite que «a enfermagem tem tido horizonte suficiente para se desenvolver num contexto holístico da saúde», o profissional admite que «existem entraves para uma real implementação destas técnicas». Desde logo, porque «na nossa cultura tudo é e tem de ser rápido, desde a comida à saúde. E assim as pessoas parecem querer que a solução acabe sempre por passar pelo comprimido».

Apesar de tudo, Bruno Azevedo é optimista e lembra que «o paradigma de saúde está a mudar, da mesma forma que a cultura». E «com uma mudança de consciência teremos certamente melhor saúde e vida», conclui.

Para saber mais:
A Associação Portuguesa de Reiki (APR) disponibiliza aos seus associados a tradução do referido estudo. Do trabalho da APR destaca-se o contínuo apoio a praticantes, mestres e terapeutas de Reiki, bem como o esclarecimento sobre a terapia. Todos os associados têm acesso livre a dezenas de documentos, manuais e materiais de suporte, recebendo ainda newsletters frequentes de apoio à prática. Para se tornar associado, basta inscrever-se aqui.

Revista Latino-Americana de Enfermagem