Enfrentar o dia-a-dia leva-me a questionar a relação que temos desenvolvido com aquilo de que somos fruto, a terra. A meu ver desapareceu a ligação entre o alimento que sai da terra e o alguém que dele se alimenta. Desenvolveu-se todo um sistema que nos distancia da origem das coisas, e portanto passamo-nos a alimentar de supermercados plastificados, de fabricas, e grandes industrias, desprezando rótulos, de onde vêm e para onde vão.

O que coloco no meu corpo é agora motivado pelo ego, pela marca, pela embalagem colorida e pelo preço económico que me aconchega o bolso, deixou de importar onde e como foi feito, talvez pelo medo de enfrentar, consciencializamo-nos em ficar distantes. Falo do consumismo, de objetos e de vidas objetivadas, da carne, da terra, do ar e da água. Da consciência que temos em ignorar a ação que poderíamos ter. Talvez ignorar a ação faça parte do medo de sentir e de enfrentar, deixando-nos estagnados no desprezo pelo contacto, pela compaixão e pelo querer saber. Talvez tenhamos, como espécie, conseguido ultrapassar o peso na consciência e no coração, escolhendo ficar indiferente.

Contudo, parto de principio de que a consciência é algo que todos pensamos possuir como característica, mas a meu ver a consciência é matreira no sentido em que nos pode fazer acreditar naquilo que queremos acreditar quando nos deparamos com situações ou realidades que não conseguimos processar, e portanto cobrimo-nos conscientemente de pensamentos confortáveis, que nos facilitam a enfrentar o dia-a-dia.

Não querendo portanto contrariar a individualidade de cada consciência, pois sinto que não é fácil nem justo falar da consciência como algo comum. Acredito que não exista um método infalível para estarmos conscientes de tudo aquilo que nos rodeia tanto de dentro para fora como de fora para dentro, talvez somente a paciência de não ignorarmos aquilo que sentimos e percecionamos. Mas, admito a dificuldade de trabalhar a consciência, pois por vezes a consciência leva-nos a más sensações e pensamentos, e como seres vivos que somos veneramos a felicidade e o estado de mente apaziguada, tentando afastar tudo aquilo que nos impeça de alcançar essas mesmas sensações, ao invés de tentarmos vivenciar e aprender com tudo aquilo que sentimos, tentando, por exemplo, aproveitar o estado de tristeza e magoa tal como aproveitamos a felicidade.

Filipa Saavedra