{"id":4542,"date":"2020-03-10T10:19:58","date_gmt":"2020-03-10T10:19:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.associacaoportuguesadereiki.com\/nucleosdereiki\/?p=4542"},"modified":"2020-03-10T10:19:58","modified_gmt":"2020-03-10T10:19:58","slug":"cantinho-de-leitura-do-nucleo-do-porto-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.associacaoportuguesadereiki.com\/nucleosdereiki\/cantinho-de-leitura-do-nucleo-do-porto-15\/","title":{"rendered":"CANTINHO DE LEITURA DO N\u00daCLEO DO PORTO"},"content":{"rendered":"<p>Rubrica mensal online<\/p>\n<p>Cultivamos o gosto pela leitura e pela escrita<\/p>\n<p>S\u00f3 por hoje\u2026\u00a0&lt;3<\/p>\n<p>PARAR<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Que marinheiro se lan\u00e7a \u00e0 aventura oce\u00e2nica sem controlar se leva na embarca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 a vela e os remos, mas tamb\u00e9m uma \u00e2ncora? Ou que caminhante enfrenta a sua jornada sem prever tempos e lugares de pausa, que lhe garantam a possibilidade de refazer-se, sentir o conforto de um abrigo e retemperar for\u00e7as para poder continuar? A viagem n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 movimento, como a vida n\u00e3o \u00e9 apenas o cont\u00ednuo das suas atividades. A arte de parar \u00e9 uma aprendizagem indispens\u00e1vel \u00e0 sobreviv\u00eancia, mesmo se isso vem frequentemente esquecido. Quem n\u00e3o sabe parar, n\u00e3o sabe viver, pois h\u00e1 uma qualifica\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia que prov\u00e9m da\u00ed, por muito que isso se tenha tornado dif\u00edcil de efetivar ou nos obrigue a deliberar em contraciclo, mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s idealiza\u00e7\u00f5es que constru\u00edmos sobre n\u00f3s pr\u00f3prios. Precisamos de parar: por car\u00eancia e necessidade, por chamamento interior e por escolha, por decis\u00e3o e sabedoria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tendencialmente as nossas vidas t\u00eam-se tornado uma esp\u00e9cie de cidade que n\u00e3o dorme. O tempo parece-nos sempre escasso face ao programa que nos impomos. Desejar\u00edamos que ele se desdobrasse, como que por magia, e fosse o que n\u00e3o \u00e9. Correndo ofegantes, num dia a dia saturado, n\u00e3o deixamos de sentir-nos ainda em falta com alguma coisa que muitas vezes n\u00e3o sabemos bem o que seja, mas que tem a forma de uma culpa que nos m\u00f3i. A sensa\u00e7\u00e3o crescente \u00e9 de que o mundo nos ultrapassa e a perce\u00e7\u00e3o da nossa insufici\u00eancia deixa-nos devorados por dentro, em terra queimada. Por muito que fa\u00e7amos, as metas mant\u00eam-se long\u00ednquas; nada nunca basta; a parte mais \u00edntima de n\u00f3s sente-se permanentemente irresoluta, em d\u00edvida e em perda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E isto \u00e9 assim, para n\u00f3s, h\u00e1 muitos anos. Para o movimento tivemos mestres, a escola organizou-nos, a fam\u00edlia tutelou de perto a nossa matura\u00e7\u00e3o. A pausa e o recreio foram confiados \u00e0s regras do acaso, na suposi\u00e7\u00e3o de que parar, brincar, repousar s\u00e3o uma ci\u00eancia inata, coisa que \u2014 compreendemos dolorosamente depois \u2014 n\u00e3o \u00e9. Esse d\u00e9fice de compet\u00eancia fica em tantas vidas como um buraco do qual se foge, um vazio colmatado com m\u00faltiplas formas de evas\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitas vezes dizemos que n\u00e3o paramos porque n\u00e3o podemos, pois, o mundo \u00e0 nossa volta, o mundo que depende de n\u00f3s, se bloquearia nesse instante. Ora, precisamos desconstruir esta ilus\u00e3o. Os que se creem insubstitu\u00edveis padecem, n\u00e3o raro, de uma vertigem prometaica enganadora. \u00c9 fundamental ganharmos um distanciamento cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao nosso contributo, valorizando mais o trabalho de autonomiza\u00e7\u00e3o dos outros do que o tecer uma rede, mais vis\u00edvel ou impercet\u00edvel, de depend\u00eancia. Sem nos darmos conta, por tr\u00e1s de uma exagerada doa\u00e7\u00e3o ou de um ativismo irreprim\u00edvel, est\u00e1 uma inseguran\u00e7a profunda nos la\u00e7os que estamos a construir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lembro-me que h\u00e1 uns anos, fazendo eu pr\u00f3prio os caminhos de Santiago, encontrei, logo no meu primeiro dia de peregrina\u00e7\u00e3o, uns brasileiros sentados na berma a tratar dos p\u00e9s j\u00e1 meio-desfeitos. Eles devem ter-se apercebido do meu ar apavorado, porque um deles disse-me, com uma tranquilidade que me animou: \u201c\u00c9 bom gastar tempo a cuidar das pr\u00f3prias feridas.\u201d Eu ainda n\u00e3o tinha compreendido que essa era uma das raz\u00f5es principais porque estava ali a enfrentar aqueles cento e tal quil\u00f3metros de estrada. Mas o mesmo se pode dizer do encontro (ou do desencontro) com os outros. S\u00f3 encontramos verdadeiramente aqueles junto dos quais fundeamos a nossa \u00e2ncora, empregando o tempo necess\u00e1rio \u00e0 escuta, \u00e0 aten\u00e7\u00e3o e \u00e0 surpresa. O n\u00e3o parar \u00e9 uma forma de fuga ao encontro mais profundo connosco mesmos e com os outros.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica mensal online Cultivamos o gosto pela leitura e pela escrita S\u00f3 por hoje\u2026\u00a0&lt;3 PARAR &nbsp; Que marinheiro se lan\u00e7a \u00e0 aventura oce\u00e2nica sem controlar se leva na embarca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 a vela e os remos, mas tamb\u00e9m uma \u00e2ncora? 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