{"id":4587,"date":"2020-04-02T16:42:52","date_gmt":"2020-04-02T16:42:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.associacaoportuguesadereiki.com\/nucleosdereiki\/?p=4587"},"modified":"2020-04-02T16:42:52","modified_gmt":"2020-04-02T16:42:52","slug":"cantinho-de-leitura-do-nucleo-do-porto-16","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.associacaoportuguesadereiki.com\/nucleosdereiki\/cantinho-de-leitura-do-nucleo-do-porto-16\/","title":{"rendered":"CANTINHO DE LEITURA DO N\u00daCLEO DO PORTO"},"content":{"rendered":"<p>Rubrica on-line<br \/>\nCultivamos o gosto pela leitura e pela escrita<br \/>\nCom textos que possam despertar, para a pr\u00e1tica di\u00e1ria dos Princ\u00edpios da Filosofia Reiki<\/p>\n<p>S\u00f3 por hoje<\/p>\n<p>Sou Calmo<br \/>\nConfio<br \/>\nSou grato<br \/>\nTrabalho honestamente<br \/>\nSou bondoso<\/p>\n<p>N\u00c3O PODEMOS VIVER SEM ESPERAN\u00c7A, MAS ESTA N\u00c3O \u00c9 UMA TAREFA EST\u00c1VEL E F\u00c1CIL. MUITO PELO CONTR\u00c1RIO<\/p>\n<p>Os gregos descreviam a experi\u00eancia humana partindo de tr\u00eas dimens\u00f5es. Trata-se de uma vis\u00e3o ancestral, mas que podemos acompanhar ainda. A primeira dimens\u00e3o seria a da mem\u00f3ria (mnemis), que fornece a base prim\u00e1ria daquele conhecimento que torna vi\u00e1vel a vida. Sem a mem\u00f3ria ter\u00edamos de reaprender tudo, a cada instante. \u00c9 por ela, por exemplo, que dormimos e, no dia seguinte, somos capazes de andar, capazes de comer, de reconhecer o mundo a nosso lado, de saber quem somos. Se a todo o momento tiv\u00e9ssemos de perguntar, \u201ccomo se caminha?\u201d, \u201ccomo se fala?\u201d, \u201ccomo se ama?\u201d, a vida emergiria lent\u00edssima e, certamente, muito diversa. Outra dimens\u00e3o fundamental para os gregos seria a aesthesis, isto \u00e9, a perce\u00e7\u00e3o sens\u00edvel do presente. A nossa experi\u00eancia concretiza-se numa pr\u00e1tica sensorial: podemos ver, ouvir, cheirar, tocar, sentir. A vida \u00e9 t\u00e1til, \u00e9 isto de que nos podemos aproximar, \u00e9 o que trazemos entre m\u00e3os. Mas aten\u00e7\u00e3o: a vida n\u00e3o se resume apenas \u00e0 mem\u00f3ria e ao presente que apreendemos com os sentidos. Os antigos nomeavam uma ulterior e necess\u00e1ria dimens\u00e3o, que chamavam esperan\u00e7a (elpis), explicada como a consci\u00eancia de que havia um al\u00e9m, um amanh\u00e3. A ideia de um futuro foi sempre tida tamb\u00e9m como determinante, mesmo se para os gregos a esperan\u00e7a era uma coisa na qual n\u00e3o se podia propriamente confiar. P\u00edndaro explicita-o bem quando relata que, no princ\u00edpio, os deuses colocaram todas as coisas boas para o homem dentro de um vaso e lhe puseram uma tampa, com a proibi\u00e7\u00e3o de remov\u00ea-la. Mas o homem avizinhou-se do vaso e destapou-o. Quando fez isso, todas as coisas sa\u00edram de repente e o \u00fanico bem que ficou dentro foi a esperan\u00e7a, a esperan\u00e7a daquelas coisas perdidas.<\/p>\n<p>Creio que daqui se extrai uma dupla conclus\u00e3o: n\u00e3o podemos viver sem esperan\u00e7a, mas esta n\u00e3o \u00e9 uma tarefa est\u00e1vel e f\u00e1cil. Muito pelo contr\u00e1rio. No extraordin\u00e1rio poema que lhe dedicou Charles P\u00e9guy (e que Armando Silva Carvalho traduziu magnificamente para a nossa l\u00edngua) garante-se que a \u00fanica realidade que deixa o pr\u00f3prio Deus espantado, em rela\u00e7\u00e3o ao homem, \u00e9 a esperan\u00e7a: \u201cN\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 que me espanta&#8230;\/ A caridade, diz tamb\u00e9m Deus, essa n\u00e3o me espanta&#8230;\/ Mas a esperan\u00e7a, diz Deus, essa sim causa-me espanto.\/ Essa sim, \u00e9 digna de espanto.\/ Que essas pobres crian\u00e7as vejam como tudo acontece\/ E acreditem que amanh\u00e3 ser\u00e1 melhor.\/ Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem\/ que amanh\u00e3 de manh\u00e3 ser\u00e1 melhor.\/ Isso \u00e9 espantoso e essa \u00e9 a maior maravilha da nossa gra\u00e7a.\/ E isso a mim mesmo me espanta.\u201d<\/p>\n<p>A ideia de um futuro foi sempre tida tamb\u00e9m como determinante, mesmo se, para os gregos, a esperan\u00e7a era uma coisa na qual n\u00e3o se podia propriamente confiar<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um lenitivo que adormece a dor at\u00e9 que ganhemos coragem para tratar a s\u00e9rio da vida, mas uma for\u00e7a que j\u00e1 hoje nos motiva para a transforma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. A esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um adiamento, mas um compromisso. N\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o idealizada, mas um dinamismo concreto, uma laboriosidade, um fazer. Precisamos de uma educa\u00e7\u00e3o para a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Sobre o seu significado profundo, e de como se pratica, h\u00e1 aquela hist\u00f3ria do velho monge que se propunha alcan\u00e7ar o cimo de uma montanha e que, numa das etapas iniciais do caminho, pernoita numa estalagem. O estalajadeiro repara na sua fragilidade e tenta dissuadi-lo, enumerando os perigos que o espreitam, e que certamente acabar\u00e3o por venc\u00ea-lo. O monge, por\u00e9m, respondeu: \u201cTenho a certeza de que chegarei l\u00e1.\u201d \u201cE como \u00e9 que um homem fraco como tu pode ter semelhante certeza? Para mais, vem a\u00ed um inverno duro.\u201d O anci\u00e3o retorquiu: \u201cColoquei l\u00e1 em cima o meu cora\u00e7\u00e3o e por isso sei que, mesmo assim inseguros, os meus passos h\u00e3o de chegar l\u00e1.\u201d<br \/>\nD. Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a<br \/>\nin Expresso, 12.01.2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica on-line Cultivamos o gosto pela leitura e pela escrita Com textos que possam despertar, para a pr\u00e1tica di\u00e1ria dos Princ\u00edpios da Filosofia Reiki S\u00f3 por hoje Sou Calmo Confio Sou grato Trabalho honestamente Sou bondoso N\u00c3O PODEMOS VIVER SEM ESPERAN\u00c7A, MAS ESTA N\u00c3O \u00c9 UMA TAREFA EST\u00c1VEL E F\u00c1CIL. 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