Saturday, October 24, 2020

Presidente da FNVS preocupado com o voluntariado no nosso país

FNVS

A Federação Nacional de Voluntariado em Saúde (FNVS) existe desde 2007 e reúne instituições vocacionadas para o voluntariado em saúde, entre as quais se conta a Associação Portuguesa de Reiki. O seu presidente, João António Pereira, vai dar a conhecer a FNVS no 3.º Congresso Nacional de Reiki e, em entrevista, mostra alguma apreensão sobre a situação actual do voluntariado em Portugal.

Quais são os principais objectivos da FNVS?

De acordo com a reflexão que vai sendo feita internamente e o caminho que se tem percorrido, face às necessidades e possibilidades, os grandes objectivos da FNVS vão-se traduzindo na implementação, organização e realização de serviços às associadas, quer só, quer em parceria com outras organizações públicas e privadas, lucrativas e não lucrativas.
São exemplo do que acabo de dizer os Seguros de Acidentes Pessoais para os Voluntários, para os Dirigentes e para os Beneficiários, nas condições mais vantajosas do mercado, mas somente acessíveis às associadas.
Refiro ainda a implementação do site, muito interactivo, da Federação, permitindo que quase tudo o que tem a ver com a relação e a comunicação entre as associadas, o público em geral e a Federação possa acontecer.Também devo realçar o trabalho que está a ser realizado no que concerne à organização do sector e à promoção de Acções de Qualificação e Formação de Voluntários. Já foram realizadas diversas Acções e continuamos a organizar o sector.

Qual é o papel do voluntariado na prestação dos cuidados de saúde?

O voluntariado tem, em geral, um papel muito importante, diria mesmo fulcral, nomeadamente e não só, no exercício da democracia participativa e da cidadania activa e pró-activa. A meu ver, de todas as formas de participação cívica, o voluntariado é aquela que “bebe” das motivações mais nobres e belas – as relacionadas com a solidariedade.
O voluntariado existe na premissa de que a participação e a promoção do bem-estar devem acontecer no contexto de um desenvolvimento sustentado e justo, logo saudável, com o sentido da responsabilidade ou melhor, da co-responsabilidade social dos cidadãos e das organizações. Nesta base, as organizações e os cidadãos têm a obrigação, mesmo moral, de prover aos outros cidadãos e às outras organizações, quando estes e estas se encontram em situações de insuficiência, de dependência ou mesmo de desfavor. Não se trata de bem-fazer ou de caridade bolorenta e com cheiro a mofo, nem de subsídio-dependência. É, tem de ser, solidariedade activa e promotora de desenvolvimento pessoal e social.
No campo da saúde, o voluntariado e os voluntários têm de facto um papel relevante. Não tanto na prestação dos cuidados e dos serviços que são atribuição dos colaboradores com vínculo laboral, mas complementando e contribuindo de algum modo para a melhoria do acesso dos clientes aos serviços e para a sua humanização.

Sente que essa percepção acompanha os vários decisores ou em Portugal o voluntário ainda não tem o estatuto que merece?

Tenho alguma dificuldade em responder-lhe. É que algo se está a passar com o voluntariado que eu percepciono como nocivo, inclusivamente se tivermos em conta o preceituado na legislação existente em Portugal. Temo que sobretudo em situação de “crise”, os princípios e os conceitos do voluntariado andem a ser desvirtuados com certas práticas.
Vemos imensos projectos, denominados de “voluntariado” que de facto não o são. Poderão ser, e sê-lo-ão com certeza, bons projectos de solidariedade e de desenvolvimento social, mas não serão claramente projectos de voluntariado.
Está a assistir-se à prática, diria mesmo organizada, de uso e abuso dos voluntários como mão-de-obra, já não barata mas gratuita, em prejuízo da segurança do emprego e da empregabilidade. E isto acontece, não raras vezes, com a conivência das organizações e dos voluntários envolvidos.
Por outro lado, quanto mais aumenta o desemprego e baixa a idade dos candidatos e ele mesmo, mais as motivações para o exercício do voluntariado resvalam do desejo de servir os outros para o desejo que o voluntariado esteja de acordo com as aptidões profissionais e académicas, e possibilite, ou a obtenção de um emprego ou o enriquecimento do currículo.
O voluntariado não pode estar, clara e prioritariamente ao serviço dos objectivos e dos interesses, nem das organizações nem dos cidadãos que o realizam.
Todas as unidades de saúde gozam de autonomia suficiente para tratar o voluntariado de modo diferenciado. Com o ajuntamento dos hospitais em centros hospitalares e os centros de saúde em agrupamentos, a legislação tem-se alterado no sentido da assimilação e da atribuição de um papel relevante ao voluntariado. A nível de Regulamentos das unidades de saúde e dos ACES, aqueles já prevêem a presença no seu seio, do voluntariado e das Organizações Promotoras externas à Unidade. Mas olhando a realidade, vemos que, em certas unidades e ACES o voluntariado é querido e acarinhado, quando em outras é simplesmente tolerado já que não pode ser ignorado.
Se “as coisas até vão andando”, é certo que se sente a necessidade da existência de uniformização do enquadramento do voluntariado e dos voluntários, pelo menos nas unidades do Serviço Nacional de Saúde.
Sente-se nomeadamente a necessidade da existência de, digamos assim, “bases de enquadramento jurídico do voluntariado no campo da saúde”. É verdade que em algumas unidades de saúde existem instrumentos que regulam de modo operacional a presença e a acção das organizações e dos voluntários. Mas são raras essas situações, assim como são raras aquelas onde existem protocolos de colaboração.

O que é que justifica que mais associações relacionadas com as terapias complementares não estejam integradas na FNVS?

Não estão filiadas mais organizações relacionadas com as terapias complementares, como aliás não estão também outras organizações de voluntariado do campo da saúde. O marketing social tem sido feito e continua a fazer-se. Eu sou o principal responsável por isso mesmo. Há organizações que ainda não estão informadas sobre a existência e a validade da Federação. Há outras que conhecem a Federação mas continuam a ter dúvidas sobre as vantagens que podem advir da sua adesão. Existem ainda outras que conhecendo o melhor possível a Federação têm vindo a manifestar a não vontade em aderir.
Isto é como a história da semente lançada na terra boa, nos escolhos ou nas pedras. Uma nasce bem, a outra lá consegue libertar-se e a outra nem sequer nasce. Vivemos e actuamos num país onde felizmente existe democracia política e participativa. Na sociedade civil, as organizações e os cidadãos são livres de se organizarem do modo que entendem para promoção dos seus objectivos e para a defesa dos seus interesses.
A escolha da Federação como plataforma federativa é um caminho que se faz, com maior ou menor velocidade, mas,
penso eu, deve acontecer com serenidade e condições suficientes para que em certo dia, alguma Organização não venha a demitir-se quando teria aderido na véspera. A escolha deve ser sensata e realizada com a responsabilidade que lhe corresponde. Não estou preocupado ao nível das adesões. Nada de dramas nem de chorar sobre o leite derramado.

Como encara a integração das terapias complementares no voluntariado?

A meu ver, o exercício das terapias complementares tanto pode realizar-se em contexto profissional como de voluntariado. Uma ou outra situação dependem da vontade de quem (ou da organização) que o pretende implementar e desenvolver. Em contexto profissional, estará naturalmente sujeito às regras do mercado em que o principal objectivo é o lucro. Em contexto de voluntariado estará mais sujeito às regras da solidariedade, da humanização e do bem-estar sem preço.
Pela prática conhecida dos voluntários no campo da saúde, sabe-se que, por exemplo, a relação, a comunicação e a empatia que se criam entre as duas pessoas traz consigo a transmissão de mensagens, de sentimentos, de emoções e de energias positivas, se quiser, que terão certamente efeitos benéficos e importantes nos processos terapêuticos, às vezes fundamentais nos processos de cura. E o exercício das terapias complementares deve, sempre que possível, ser realizado em contexto de voluntariado e percebe-se que é cada vez mais importante a actividade da Associação Portuguesa de Reiki e daquelas que desenvolvem outras terapias complementares.

A FNVS vai marcar presença no 3.º Congresso Nacional de Reiki. Qual é a mensagem principal que pretende transmitir aos nossos associados, bem como às restantes associações e instituições presentes no encontro?

A primeira mensagem é de agradecimento por terem escolhido filiar-se na FNVS e juntarem-se aos outros voluntários, porque acredito que a Federação é o caminho certo para a organização federativa do voluntariado que se realiza no campo da saúde e do bem-estar, considerando o conceito que expliquei anteriormente.
Embora a FNVS tenha nascido no berço do voluntariado hospitalar, digamos, o tradicional, é importante que cada dia que passa ela se abra e acolha outros colectivos, outras sensibilidades de voluntariado no campo da saúde, como é o caso da APR e como serão outros casos no futuro. O voluntariado, digamos, alternativo, é uma área emergente e que deve ser acolhida.
Depois, numa federação como a FNVS, constituída por diversas e diferentes organizações de voluntariado em saúde, acaba por ser uma organização rica a esse nível. Várias áreas, várias histórias de surgimento e de vida, conceitos antigos que se renovam, práticas que se querem mais qualificadas, mais humanizadas e humanizantes, numa sociedade à qual alguém já chamou de “pós-humana”, ou seja, onde a pessoa já não conta. Contam apenas os sucessos financeiros.
A FNVS com esta realidade, pode e deve ser um fórum de partilha, de intercâmbio e da promoção das obrigações, para o engrandecimento do voluntariado em geral e do na saúde em particular. Todos são bem-vindos à FNVS. Todos somos convidados ao conhecimento mútuo e à partilha dos saberes e dos recursos. Afinal, também na FNVS todos somos co-responsáveis e, consequentemente, solidários. Bem-hajam pela escolha que fizeram. Tal como para a FNVS e para o restante voluntariado em saúde, também à APR desejo bom reconhecimento e vida longa e profícua.

No próximo dia 20 de Outubro realiza-se o IV Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde, com um programa muito interessante e palestrantes de alto nível. Quais foram os principais objectivos que presidiram à configuração deste programa?

Desde o início que fazemos bandeira com a realização do Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde. É que, se por um lado, os voluntários do sector estão habituados a encontrar-se uns com os outros, por outro lado, também é verdade que mesmo antes de a FNVS existir juridicamente, realizaram-se dois encontros nacionais com a mesma denominação e precisamente num deles foi apresentada a proposta de Estatutos e constituído o primeiro Grupo de Trabalho que levaria à constituição da Comissão Instaladora. O Encontro Nacional já vem do útero materno.
Depois,trata-se de uma iniciativa com os olhos postos no exterior da FNVS, virada para os outros e não focalizada no próprio umbigo. Este evento deve ser, sempre, um ponto de encontro e de convívio entre os voluntários das diferentes organizações presentes. Deve possibilitar o contacto e a apreensão de conteúdos temáticos novos e inovadores que permitam melhorar a qualidade dos voluntários que somos e do voluntariado que realizamos.
Os encontros nacionais têm a dimensão e o nível que é possível terem. Trata-se de um evento que só muito raramente é apoiado ou subsidiado pelo poder político e que quase sempre não recorre a profissionais. Toda a preparação, a organização, a produção de meios, a realização e o financiamento, têm por fonte a Federação.
Sobre o 4.º Encontro, penso que vai ser bom, que vai correr bem e que todos sairão satisfeitos dele. O grande agradecimento vai para a Faculdade de Economia da Universidade do Porto, pela disponibilização do espaço.

O que é que mais o preocupa actualmente no voluntariado em Portugal?

Como já deve ter dado para perceber anteriormente, preocupa-me não já o presente mas o futuro do voluntariado em Portugal e quiçá no Mundo. Parece estar a assistir-se ao incremento do mercantilismo e da individualização do voluntariado, retirando-lhe a postura de serviço ao outro/aos outros, e esses outros claramente em situação de insuficiência, de exclusão ou desfavor, para passar a ser mais uma obrigação que se tem que cumprir em troca de algo que não é fixo, que é precário e que é efémero.
Ou seja, numa sociedade que já se afirma ser “pós-humana”, o voluntariado tende a estar mais ao serviço de interesses individuais e de grandes poderes a vários níveis. Não concebo que a esta realidade, que já anda por aí, se chame voluntariado. Pode ser que isso mesmo deva acontecer, mas se assim for, isso não é voluntariado. É outra coisa qualquer, à qual se deve dar outro nome, mas que deve ser bem diferente para que não se confunda com o voluntariado desinteressado, responsável, solidário, gratuito, etc. Aquilo nem sequer é solidariedade. Não é servir. É servir-se.
Tenho fé que a situação não vai ser assim tão dramática. Mas devemos estar vigilantes e atentos à forças e aos movimentos que, não raras vezes, já andam aí, como lobos vestidos de cordeiro. Estejamos atentos.
É pelo que acabo de afirmar que organizações como a FNVS são tão importantes no sector do voluntariado nomeadamente no da saúde.
É preciso que actuemos voluntariamente, mas também é preciso que estejamos organizados e unidos em plataformas que ajudem a isso mesmo. No caso do voluntariado em saúde, acredito sinceramente que essa plataforma é a FNVS.

[box type=”info”] FNVS participa no 3.º Congresso Nacional de Reiki
Um dos temas que irá ocupar parte do programa do 3.º Congresso Nacional de Reiki é apresentação da Federação Nacional de Voluntariado em Saúde. O seu presidente, João António Pereira, irá abordar a importância da FNVS para as diversas associações ligadas à Saúde, partilhando ainda a sua perspectiva sobre a inclusão das terapias complementares em programas de voluntariado.

O 3.º Congresso Nacional de Reiki realiza-se no próximo dia 27 de Outubro, em Guimarães. Mais informações estão disponíveis aqui.[/box]

 


 

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