Na sua coluna Há quem diga, do jornal Nascente, o Padre Ricardo Cristóvão faz uma introdução à sua opinião sobre o que é o Reiki. Claro que existem muitas opiniões sobre tudo, mas muitas vezes surgem de uma percepção, estudo e compreensão errados sobre determinada matéria. Mas esse erro não é só da parte de quem faz o comentário, mas infelizmente ainda muitos praticantes levam o seu percurso a práticas que dão azo a estes comentários. Então, ao observar as respostas, devemos também fazer uma profunda análise sobre o que andamos a praticar, de que forma, e o que precisamos alterar.

Reiki, ou melhor, o Usui Reiki Ryoho é uma terapia e uma filosofia de vida, criada no Japão em 1922, por Mikao Usui. É uma prática terapêutica do campo energético, para a promoção do equilíbrio e harmonia da pessoa. A sua aplicação não é manipulativa do corpo, nem tem acessórios ou prescrições para a prática. Não existe uma promessa de cura, pois como terapia natural ela actua unicamente na capacidade autocurativa da pessoa, ou seja a capacidade que todos temos sem excepção. Mas isso não faz do praticante de Reiki um curador, muito pelo contrário, é sim um facilitador de energia que poderá auxiliar a pessoa que a recebe a encontrar a sua homeostase, se tal for possível dentro da sua capacidade autocurativa. Com isto:

  • “Reiki é uma terapia óptima para tudo” – é sim, não tem contra indicações e não é manipulativa;
  • “Que cura e melhora todo o tipo de doenças” – errado. Não existe promessa de cura e Reiki não actua no campo médico.

Exacto, reiki fala não de uma técnica mas de várias técnicas orientadas ao desenvolvimento pessoal, como a meditação, a orientação para uma vida melhor através de cinco princípios e ainda uma prática terapêutica voltada, em primeiro lugar, para o praticante, através da energia.

A parte sobre os chakras já não faz parte do ensinamento original e é de origem hindu, usado há milhares de anos em conceitos como o yoga e a ayurvédica. Foi uma adaptação ocidental, talvez da Mestre Takata ou de um dos seus mestres, para que as pessoas compreendessem melhor o que é a energia e para onde vai. No Japão, na altura do Mestre Usui o que seria talvez ensinado era o sistema de Tanden, ou centros vitais.

Ao constatar “uma sensação ilusória de bem-estar, um falso alívio dos sintomas”, não conseguimos perceber se o Padre Ricardo Cristóvão já aplicou Reiki, ou seja, se já aprendeu e assim o poderá testemunhar. Assim como quem não é padre não compreende o que é a sua profissão, também quem não é praticante de Reiki não consegue compreender os efeitos da prática. Mas isto também nos chama a atenção à razão pela qual alguém vai aprender Reiki e também à forma como a prática é ensinada. Tendo em mente que a aplicação terapêutica é para equilíbrio e harmonia, não devemos por um lado tratar com Reiki e depois mantermo-nos nos mesmos caminhos de vida. É como ser alcoolico, receber Reiki e depois ir beber alcool novamente.

“É um isco para que pensemos que tudo é maravilhoso”. Aqui está a sugerir que quem ensina e pratica Reiki é um burlão e de facto é burlão quem ensinar ou praticar com um sentido de promessa de cura. Sobre isto muitos praticantes poderão responder. Quem realmente pratica compreende que Reiki é, em primeiro lugar, muito mais que a “imposição de mãos”, é uma filosofia de vida orientada ao próprio praticante. E como estamos num país laico, se se respeitam religiões, também se respeitam filosofias de vida.

“Dizem-nos que para fazer isto não é preciso estudar”. Totalmente errado. É preciso estudar, é preciso praticar e muito. Mas aqui encontra-se a falha em quem ensina em método rápido e não interessa se o faz a pagar ou gratuitamente, está a entregar algo de uma forma destruturada e sem tempo de crescimento. Pratico diariamente há mais de 15 anos e cada vez vejo que menos sei, apesar de estudar com regularidade. No entanto, este tempo tem-me vindo a trazer sabedoria.

“ser canal de energia… suficiente para te curares a ti próprio”. Certo e errado. Até mesmo não sendo praticante de Reiki, todos nós somos canais de várias energias. É por isso mesmo que uma mãe coloca as mãos na ferida do filho. É por isso que nos sentimos pesados quando estamos tristes ou leves quando estamos felizes. O errado está que não há promessa de cura, há sim é a capacidade da pessoa se poder virar para si e cuidar-se, não procurar “milagres” ou fontes invisíveis poderosas que a curem. É um voltar a si mesmo, entendendo o que em si está mal, até para poder partilhar melhor com quem cuida dele.

“inscreveres-te no nível seguinte para adquirir o poder de curar outras pessoas”. Infelizmente esta coluna parece sim ser uma propaganda, um serviço de marketing mas um pouco mal pensado. Isto porque o nível 2 de Reiki, Okuden, que em japonês significa os segundos ensinamentos, está orientado ao desenvolvimento pessoal, em maior profundidade. A partir daqui, o praticante começa já a aplicar Reiki em outros, principalmente em regime voluntário. Mas, nada tem a ver com “poder de curar outras pessoas”. É sim, aplicar Reiki como terapia para o equilíbrio e harmonia da pessoa, se tal for possível nela.

Aos padres, como a qualquer outra pessoa, convém esclarecer o que é a prática, para que não sejam remetidos a erro por ideias que nada têm a ver com Reiki. Não existe um mundo novo, ele sempre existiu e na prática de Reiki nada se fala sobre Deus, ou seres de luz ou mestres de luz. Novamente aqui entram as crenças pessoais de quem está a ensinar ou a praticar, por isso, devem mesmo ter em atenção o que dizem.

Sobre a comprovação do Reiki, cada vez menos vejo que é desnecessário. A comprovação da eficácia é que sim, quase parece uma coisa para justificar o que se observa de bom e com tempo, principalmente nos tempos de necessidade, observaremos o que poderá contribuir, integrativamente, para o equilíbrio e harmonia das pessoas. A prática de Reiki é aberta a todos, mas não quer dizer que todos compreendam exactamente o que ela é verdadeiramente. Por vezes confunde-se crescimento pessoal com espiritualismos. Outras vezes confunde-se equilíbrio e harmonia com “capacidades” curativas. São erros de percepção aos quais todos estamos sujeitos.

Espero que o Padre Ricardo Cristóvão não tenha estado numa situação de “ritual, dar autorização para sentir as energias”. Porque infelizmente isso não seria Reiki. Porque o processo de sintonização nada tem a ver com rituais (não há benzeduras, ou orações, ou gestos invocativos), muito menos há algo como “dar autorização a sentir energias”. Esta frase sim é denotória de alguma limitação ou transmissão absolutamente errada do processo de aprendizagem. Sentir energia toda a gente sente, aquilo que fazem num curso de Reiki é aprender a trabalhar com a energia.

A questão de aprender “de memória símbolos japoneses”, isso talvez tenha a ver com o estudo que alguém lhe passou da Mestre Takata, ela sim pedia para os alunos praticarem e depois deixarem os papéis e ficarem com eles em memória. Era uma tradição muito oral, naqueles tempos. Hoje em dia os símbolos já são levados para casa, mas isto tem a ver com o segundo nível. Símbolos, para alguma mente mais confusa, é uma forma de trabalharmos a concentração em determinada frequência da energia.

“e convidando os amigos a fazerem o mesmo”. Infelizmente isto parece um cartaz publicitário. Acredito que este testemunho advém de experiências muito infortunadas. Mas é uma boa chamada de atenção aos Mestres de Reiki.

E teremos nós todo o gosto em explicar o absurdo disso. É uma felicidade podermos estar no século XXI e podermos continuar a atribuir a ignorância que em todos nós está a factores externos (“a que a igreja chama demónios”). É mesmo por estas razões que os praticantes de Reiki devem ter em mente, muito claramente, que Reiki não está ligado a qualquer religião ou espiritualismos. Que Reiki é uma filosofia de vida e uma prática terapêutica. Se compreender a mentalidade oriental é fácil? Não é, não somos japoneses, mas compreendemos que todos precisamos viver um bocadinho melhor, que precisamos promover mais calma, autoconfiança, gratidão, honestidade e bondade na vida.

Estamos sempre abertos a um diálogo entre os vários credos religiosos, para a explicação de que Reiki nada tem relacionado com as suas crenças. Assim como Reiki não tem filiações políticas ou futebolísticas.

 


 

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