Estamos no verão. Tempo de férias.
De encontros e reencontros, que nos lembram que somos de outros lugares, dos nossos lugares de sempre e que nem sempre coincidem com os lugares que escolhemos para viver.
Quem migra sabe o que isso significa e o que é bom.

Geralmente é o tempo do regresso a casa, ao coração da família a que pertencemos, sem relógio, apenas com uma imensa disponibilidade na bagagem.
Para ouvir, para falar, para degustar histórias de um passado longínquo que nos lembram como ainda somos crianças, “feitas para grandes férias” como naquele verso de Ruy Belo, ainda que férias, para muitos de nós, signifiquem apenas uma pausa de dois ou três dias, que podem valer quase tanto como uma vida.
Desligamo-nos do piloto automático e os sentidos parecem que acordam e tudo ganha uma nova dimensão, como se descobríssemos finalmente que a rotina não nos basta. Nunca nos bastou. Nós é que não tivemos tempo de refletir sobre isso porque nas nossas rotinas perdemos a capacidade de nos deixar surpreender, atrás de um relógio que corre e que nos condiciona para o que é óbvio e o que entra dentro do nosso espartilho quotidiano, meticulosamente engendrado.

A diferença entre as férias e o dia a dia pode ser resumida desta forma, como às vezes digo em família: a casa até pode estar desarrumada, mas a cabeça tem de estar limpa e o coração totalmente disponível.

Estes são, definitivamente, os caminhos do verão, nos quais nos reaprendemos..
O pior vem depois. O momento da despedida.
Ouvimos e falámos tanto, mas tanta coisa ficou por dizer.
Um dos poetas que está à minha cabeceira é José Tolentino Mendonça. A propósito das despedidas- num texto muito interessante intitulado “Despedimo-nos uns dos outros muitas vezes”- o poeta e sacerdote diz que a despedida “é a parte mais difícil da esperança”.

Raramente me despeço de alguém com facilidade. Aliás a maneira que tenho de aliviar a tensão da despedida é com um simples “até logo”, como se as palavras selassem o nó que se instala no coração e o “até logo” mitigasse a saudade absoluta, que a partida deixa.

Na despedida gosto daquele abraço prolongado em silêncio.
É ele que nos ata uns aos outros, mais do que qualquer palavra.
Há uma canção do brasileiro Milton de Nascimento de que gosto particularmente: “E assim chegar e partir// São só dois lados da mesma viagem//O trem que chega// É o mesmo trem da partida//A hora do encontro é também despedida// A plataforma dessa estação// É a vida desse meu lugar”.
Gosto, mas tenho dificuldade em praticar. Talvez este seja o meu maior desafio destas férias.
A despedida “é a parte mais difícil da esperança”, diz o Pe Tolentino. Mas a esperança é, também, o que nos mantém vivos. E só ela nos permite alimentar o perfume do eterno. Tenho esperança, não no futuro hipotético mas no presente.
Boas férias e, sobretudo boas despedidas.
Carmo Rodela

 


 

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