Comemora-se no dia 5 de Junho, o Dia Mundial do Ambiente.

Na verdade são vários os dias que estão destinados à preservação do Meio Ambiente, à Terra, à Árvore, à Floresta, à Natureza.

Quem me conhece, sabe que não dou grande importância a estes dias, embora reconheça que alguns deles, servem para dar voz a temas que em regra passam despercebidos ou não são cuidados no dia-a-dia.

Mas para assinalar este dia, resolvi pesquisar.

Não só me deparei com um número significativo de dias comemorativos, em que as causas e os objetivos são semelhantes embora com enfoques diferenciados, como verifiquei que vários deles se iniciaram nos anos 70, portanto há cerca de 50 anos atrás.

Voltemos então ao ano em que o Dia Mundial do Ambiente foi criado – 1972.

Estávamos a uns escassos 27 anos do final da terrível Segunda Guerra Mundial (39/45). As cicatrizes ainda se notavam nos países que tinham estado em guerra. Nesse ano os EUA encontravam-se em plena Guerra do Vietnam, Nixon era o Presidente dos EUA, Brezhnev o Presidente na União Soviética e a China era conduzida por Mao Zedong. Estávamos a 12 anos do início do movimento Hippie, um movimento de contra-cultura dominante, iniciado nos anos 60.

No início do mês de Dezembro desse mesmo ano (1972), ocorreu a última missão do programa espacial Apollo. A Apollo 17 descolava em direção à Lua, naquela que foi a última vez que um Ser Humano pisou o satélite terrestre. Por ocasião dessa missão, os Astronautas tiraram uma memorável foto do planeta Terra, apelidando-o de Planeta Mármore. Tinham-se passado uns escassos 3 anos, que Neil Armstrong tinha pisado solo lunar e dito: “É um pequeno passo para o homem, mas um salto enorme para a humanidade”.

Portugal, um país muito diferente do que é hoje, encontrava-se no “Estado Novo” ou regime “salazarista” com Marcelo Caetano no poder como Presidente do Conselho e Américo Tomás como Presidente da República. Era sem dúvida um país muito diferente política e economicamente, e bastante mais rural do que nos dias de hoje.

Entre os dias 5 e 16 Junho de 1972 é realizada em Estocolmo a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, a primeira grande reunião de chefes de estado focada na procura de um equilíbrio entre o desenvolvimento económico e a redução da degradação ambiental (poluição urbana e rural, desmatamento, entre outros pontos).

Desde 1972 até hoje, o mundo “cresceu” exponencialmente, tanto em população, como em bens de consumo, em tecnologia, em meios de transporte, como em rapidez. A internet, praticamente tal como a conhecemos hoje, começa a ser disponibilizada para uso público, cerca de 20 anos depois, por volta dos anos 90.

Em 2020, estamos a 48 anos desse dia 5 de Junho.

Passou meio século!

Com o crescimento da globalização, com a democratização do transporte aéreo e do automóvel, alguns dos transportes públicos foram sendo preteridos e nalguns casos negligenciados, como foi o caso do comboio, com as consequências que todos conhecemos. Os bens alimentares atravessam hoje oceanos e percorrem estradas infinitas para as mesas dos consumidores; a publicidade impõe-se, criando necessidades desnecessárias e supérfluas.

A inevitável consequência é, entre vários outros pontos, o aumento da poluição global, a diminuição dos recursos disponíveis no planeta para as próximas gerações e a diminuição da poluição em países do hemisfério norte, com a deslocalização da sua produção para países Asiáticos, realizada em condições de trabalho e de remuneração que nós ocidentais, não aceitaríamos.

Hoje acrescentamos a estas preocupações muitos outros vetores, a diversos níveis – individual, coletivo, social, económico, global e climático.

Hoje, mais do que ontem, conseguimos ter uma noção clara, de que o capitalismo é o sistema económico mais poderoso e mais relevante do planeta, focado no contínuo crescimento económico e no ganho a curto prazo. Percebemos hoje que a cultura da criação de empresas e de negócios constituídos do mesmo modo, vão gerar resultados iguais aos que conhecemos, se não mesmo piores, uma vez que as práticas estão focadas no Ser Humano como o elemento central do Planeta, ignorando que somos parte intrínseca da natureza.

Daniel Christian Wahl, no seu livro “Design de Culturas Regenerativas”, refere que é necessário passar de uma cultura de soma zero (ganha-perde), para uma cultura de soma não-zero (ganha-ganha). Mas se incluirmos o Planeta Terra nesta equação, então poderemos passar ativamente para uma cultura de ganha-ganha-ganha, uma vez que estaremos focados na visão individual, coletiva e planetária, compartilhando a abundância através de vantagens colaborativas.

Esta noção não-antropocêntrica – o Homem como uma das partes da natureza e do planeta Terra, com uma noção da escala planetária e universal em que está imerso – poderá aportar soluções que virão a gerar um aumento da diversidade a vários níveis – natural, social e cultural.

Por outro lado, há que ter presente a noção de complexidade do mundo e a importância em diferentes planos da bioregião onde vivemos, da sua respetiva bioprodutividade e da necessária resiliência para levar a bom porto as diversas iniciativas empresariais, culturais e ecológicas.

Como refere Daniel Wahl, é crucial recriar a saúde e a vitalidade das comunidades humanas locais e dos ecossistemas bioregionais em que estão inseridas, bem como redescobrir um “terreno comum”, que poderá ser naturalmente fértil de ideias. O “meio natural” (as árvores, os rios, os mares, os seres viventes e não viventes, …) observado cuidadosa e atentamente de um modo sistémico e holístico, é certamente o “modelo” que está ao nosso dispor e aquele que com maior sucesso poderá ser implementado.

Este novo modelo inspirado na observação cuidada da natureza, com distanciamento emocional e uma distância temporal suficiente, permite descobrir colaboração, adaptabilidade, criatividade, noção de localidade, resiliência e capacidade de resposta em tempo útil. Por outro lado, tal como os organismos vivos acabam por alimentar o próprio ecossistema com a sua própria morte, o fim de uma empresa deve prevê-la nos seus planos iniciais, substituindo-se a premissa da sustentabilidade pela da regeneração.

Neste ponto, poderíamos introduzir um outro modo de estar no mercado, que pode ajudar a viabilizar algumas empresas de base regenerativa, introduzindo o capital não-financeiro ou dos múltiplos capitais abordado, entre outros, por Niphun Metha, Charles Eisenstein e em Portugal por Marco de Abreu. Podemos então encontrar nestes modelos diversos capitais – social, natural, espiritual, cultural, incluindo o monetário. O uso dos múltiplos capitais permite, em redes colaborativas, ajudar a desenvolver uma ecologia económica, que proporcione outra vitalidade às relações entre organizações, criando uma rede simbiótica de base local, que nutre e apoia os ecossistemas na sua bioregião, nutrindo culturalmente a comunidade local, para a ajudar a pensar e agir de outro modo e em última análise, a mudar o Mundo.

Este novo modo de agir, sai de uma narrativa de escassez e de competição, para um mundo de abundância, de interconexão, de inter-relação e de interdependência.

Deixo aqui algumas perguntas simples, constantes no livro de Wahl, que podem servir de reflexão e de ponto de partida para um novo rumo:

Como podemos nós, humildemente tornarmo-nos o mundo, conscientemente, evoluindo em direções que apoiam profundamente todas as formas de vida?

Como podemos crescer como seres em evolução – e assumir a responsabilidade pelo nosso próprio papel como a co-inteligência cada vez mais consciente do universo?

Gabriel Ludovice Simões