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Entrevista a Elsa Mourão sobre o workshop “A morte e o morrer”


Dia 1 de Agosto tivemos o prazer de assistir ao workshop “A morte e o Morrer”, pela Drª Elsa Mourão, através da iniciativa Amadora Compassiva. Partilhamos convosco uma entrevista sobre este tema tão profundo e do qual podemos tirar tantas lições para viver melhor.

A morte e o morrer é um tema que nem sempre é encarado com serenidade, porque será que isso acontece?

Penso que há muitas razões mas falarei apenas de algumas. A morte deixou de ser enquadrada na vida, deixou de fazer parte do dia a dia. Em casa não se fala da morte, as crianças não assistem aos rituais, há pessoas que chegam à idade adulta sem nunca terem visto uma pessoa morta ou sem terem estado num velório ou funeral.

Por outro lado, a medicina avançou tanto que se espera que todas as situações de doença tenham cura e que a vida seja prolongada ao máximo. Também graças à melhoria dos cuidados de saúde, a mortalidade infantil desceu muito e por isso a morte duma criança é estranha hoje em dia enquanto há umas décadas atrás era “normal” uma família ter pedido um ou mais filhos nos primeiros tempos de vida.

Mesmo perante a morte dum pessoa já com muita idade há um espanto e uma não aceitação, sendo tida por muitos profissionais de saúde como um insucesso e pela população como uma incompetência.

Mas, para além destes aspetos mais “físicos”, há as questões existenciais e durante muito tempo, pelo menos no ocidente, o ser humano viveu longe da espiritualidade, centrado no materialismo do Ter e do Fazer e muito menos no Ser. Então com a morte surge não só o medo do  desconhecido mas a sensação do fim de tudo. E é difícil ficar sereno se o “fim de tudo” é assumido como o “fim de nada”, numa vida sem sentido.
Finalmente o confronto com a morte do outro é também um confronto com a finitude do próprio e isso causa frequentemente inquietude e medo.

Como sentes que podemos compreender melhor a vida, compreendendo a morte?

Falo da minha experiência profissional como médica de emergência no INEM e na urgência hospitalar. O facto de muito jovem ter vivenciado a morte súbita  e inesperada por acidente ou doença, deu-me a noção clara da fragilidade da vida humana e da impermanência. Por isso, sabendo que  a vida é precária passei a amá-la, a agradecer cada dia, a valorizar cada momento, a não deixar nada por dizer ou fazer. Assim, se percebermos que há este ciclo de vida e morte, independentemente das crenças que tenhamos, compreendemos a vida e percebamos que a morte é “apenas” a outra face, inevitável e potencialmente presente desde o momento em que nascemos.

Gosto muito da frase do Steve Jobs (co fundador da Appple, que morreu aos 56 anos com cancro):  “A ideia de que vamos morrer é o melhor estimulante para se tomarem as decisões mais acertadas da vida … confrontados de forma real , não com mero conceito intelectual, filosófico ou religioso, escolhemos o essencial e descartamos o acessório”

Que tipo de reações têm tido os participantes destes workshops sobre este tema?

Nestes WS tentei falar sobre a parte física do processo de morrer. Há uma ideia generalizada em muitas pessoas de que morrer é sinónimo de sofrimento. Mas, no processo de morrer, podem surgir uma série de alterações que são a resposta do corpo físico a esta fase e que são normais e não são sinal de sofrimento. Por exemplo a respiração pode ficar irregular e podem surgir “barulhos” que são devido as secreções que não conseguem ser engolidas mas, para quem vê e não sabe, pensa que a pessoa está aflita com falta de ar …

Os participantes reagiram bem a esta explicação e alguns disseram que se sentiram  aliviados. Partilho um dos comentários do questionário de avaliação final :

“Cada vez tenho mais a noção da importância de trabalhar este tema. Transmite-me maior serenidade perante esta realidade… Pensar que me posso preparar para o meu momento e/ou para o dos outros dá-me tranquilidade”.  

“Percebi que tenho de continuar a aprofundar e partilhar mais, falando sobre estes assuntos… Ter/criar momentos interessantes e simples com as pessoas que convivo, com os meus familiares e colegas de trabalho…”.

Algumas pessoas referiram que foi bom ter um espaço onde foi possível falar de temas que no seu dia-a-dia não conseguem abordar com os familiares e amigos.

Foi também positiva a reflexão sobre a importância da presença compassiva da família e dos amigos e, quando (se) necessário, duma equipa técnica que cuide e controle os sintomas.

Como podemos ter uma abordagem compassiva para com aquele que está em fase terminal?

Podemos ter uma atitude compassiva, respeitando a pessoa e dando atenção não apenas ao biológico mas essencialmente ao biográfico. Saber o que essa pessoa deseja, o que a preocupa, que preço está disposto a “pagar” para viver uns tempos mais e o que não aceita.

Ser compassivo é ter a  coragem de não fugir, a sabedoria para fazer o que é certo e o compromisso de estar presente. Sendo que estar presente pode ser apenas estar em silêncio, mas estar.

E como podemos também ter uma abordagem compassiva para com o receio da nossa própria morte?

Começo a resposta a esta questão, com uma frase de uma das pessoas que assistiu ao workshop: podemos ter uma abordagem compassiva para connosco, “ aceitando a necessidade de nos abrirmos ao mistério, àquilo que não tem necessariamente uma explicação, na morte e no morrer”.

Aceitar o medo é aceitar a nossa vulnerabilidade e amarmo-nos apesar dela. Acredito que quanto mais tivermos claro o sentido da vida, quanto mais admitirmos  que somos perfeitos na nossa imperfeição e quanto mais gratos nos sentirmos, mais preparados estamos para uma boa morte.

Acho muito bonita a frase da Dr.ª Ana Cláudia Arantes (que escreveu o livro “A morte é um dia que vale a pena viver”): “A morte é um excelente motivo para buscar um novo olhar para a vida”.

Este workshop com certeza que te veio trazer um desejo para as pessoas que o assistem, qual é ele?
Tivemos muitas inscrições o que representa que este tema foi bem recebido. As pessoas presentes participaram muito e na avaliação pediram que se fizessem mais encontros sobre este tema e também sobre o Testamento Vital. Foi também manifesta  a vontade  de aprofundar o tema da morte e do morrer, de refletir sobre ele e de “normalizar” a morte.

Senti que desmistificámos alguns medos e tenho esperança que assim, a pouco e pouco, será possível para um maior número de pessoas viver com sentido, preparar a sua morte, morrer serenamente em casa, morrer acompanhado, sem descontrolo de sintomas e ter uma boa morte. Sendo que a boa morte é uma morte que merece fazer parte da história da vida.

Sobre Elsa Mourão

63 anos, mulher, mãe, avó, filha, esposa, médica ( a ordem não interessa … todos os papéis são importantes )

Fui médica emergencista durante mais de 20 anos. Fiz parte dos primeiros médicos que no INEM iniciaram o socorro na rua e nos domicílios

Durante 10 anos trabalhei na urgência hospitalar de dois grandes hospitais de Lisboa. Aí veio o desafio de apoiar as pessoas com doenças crónicas em fase avançada …. numa fase em que frequentemente era dito que não havia nada a fazer. Acredito que ser médica não é só curar e salvar é também (diria essencialmente) , cuidar, acompanhar, permitir o máximo de qualidade e estar sempre presente. Estar sempre presente, mesmo quando não há cura .. mesmo quando o fim de vida pode estar para breve… por isso fiz formação e treino em Cuidados Paliativos.

Porque muitos doentes desejam ficar em casa nessa fase desafiante, decidi contribuir para a criação de um equipa de cuidados paliativos em casa e assim surgiu a LInQUE, uma cooperativa formada em janeiro de 2015.

Porque a vida não é só trabalho, gosto de namorar, de estar com os amigos e a família, de passear na natureza, de viajar, de ouvir música, de observar aves, de ler um livro à lareira, de fazer biodança e, às vezes, … de ser capaz de não fazer nada.

Setembro de 2020